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Olhe para baixo: o que torna um filme bom – Paulo Henrique Arantes



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Tem gente desferindo chutes sobre “Não Olhe para Cima”, dirigido por Adam McKay e que estreou nestes dias na Netflix. O que torna um filme bom ou ruim? Alguns consideram um filme ótimo porque conta uma ótima história, outros porque traz atores em interpretações marcantes. Há ainda aquele que diz amar um filme por transmitir posicionamentos políticos idênticos ao dele, expectador. 

Não é preciso ser crítico de cinema para saber que um filme é resultado de intenso trabalho técnico, do suor de uma centena ou mais de profissionais. Quando esse grupo de trabalhadores consegue realizar o intento original, a fita, muito provavelmente, será boa. Se esse mesmo filme não tiver como objetivo principal o resultado comercial, poderá ser arte. Notem que um filme não deixa de ser arte por ter alcançado resultado comercial estrondoso.

Não se deve analisar uma obra cinematográfica sem ocupar-se da clareza e da verossimilhança do roteiro, da qualidade (ou da originalidade) fotográfica, da edição das sequências, do movimento das câmeras, do desempenho dos atores e das atrizes. Também não se pode avaliar um filme sem saber que Godard é considerado um gênio dessa arte que despreza roteiros e monta sequências com cortes que parecem defeitos no equipamento de edição. 

Pós-introito, digo que sim, “Não Olhe para Cima” é um filme muito bom. É arte? Não. Não é original no manejo da linguagem cinematográfica, não é artesanal, tampouco inovador no uso da tecnologia. Tem fotografia realista, câmeras ágeis (sem aquela horripilante trepidação, aberração tão em moda), excelentes atores. O roteiro, que foi criticado por ser “lento” em certo momento, é perfeito para o objetivo do diretor: irritar-nos. Claro, reproduzindo nossa irritação com a invencível imbecilidade dominante nestes tempos.

O filme é um deboche (no bom sentido) sobre os negacionismos que infestam o mundo. Troque-se a presidente e o cometa em tela por um Bolsonaro qualquer e a pandemia e têm-se a realidade. 

“Não Olhe para Cima” deverá muito do seu êxito comercial ao carisma dos atores e das atrizes escolhidos. Faz duas décadas que Leonardo Di Caprio deixou de ser um belo rostinho para cravar interpretações magníficas (talvez as melhores sejam com Scorsese, em “Os Infiltrados” e “O Lobo de Wall Street”). A personagem de Jennifer Lawrence é hilariante (impagável a insistência dela em questionar as razões de um general na Casa Branca lhe ter cobrado por um sanduíche que ali era distribuído gratuitamente). Meryl Streep encarna à perfeição a mandatária preocupada antes de tudo com a reeleição, mesmo que à custa do fim do mundo. Seu filho-assessor, Jonah Hill, é o retrato da boçalidade que caracteriza nove em cada 10 assessores políticos, chefes de gabinete e bajuladores em geral. 

Tão oportuno quanto a crítica ao negacionismo e ao domínio sobre a vida na Terra exercido pelas gigantes de tecnologia é o ataque (frontal) de McKay  à mídia, que se revela um antro de debiloides. Um programa de entrevistas “leves” deve ser “leve” e provocar risinhos bobos mesmo que sentado diante dos apresentadores esteja um cientista provando a proximidade do fim do mundo. Cate Blanchett e Tyller Perry, os apresentadores, são donos das duas melhores interpretações de “Não Olhe para Cima”. A repulsa que tais figuras nos provoca quase se assemelha à que sentimos quando diantes de um debate na TV Jovem Pan. Quase.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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