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Diretora do Memorial do Holocausto de Paris considera ‘chocante’ ideia de partido nazista no Brasil


“Nunca imaginamos que isso fosse voltar desse jeito um dia”, afirma Sophie Nagiscarde


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RFI – “Nunca imaginamos que isso fosse voltar desse jeito um dia”, confessa Sophie Nagiscarde, diretora de atividades culturais do Memorial do Holocausto de Paris em entrevista à RFI. Organizadora de diversas exposições e eventos no maior e mais antigo centro de documentação do horror nazista na Europa, ela comentou a recente polêmica envolvendo o ex-apresentador Monark do podcast Flow, que chegou a declarar ao vivo ser a favor da criação de um “partido nazista” no Brasil.

“Shoah” é o termo de origem judaica que se usa na Europa para se designar o Holocausto perpetrado pelos nazistas alemães, que matou mais de seis milhões de judeus, mas também ciganos, homossexuais e quaisquer cidadãos considerados fora da norma dominante instituída pela ideologia nazista. Em Paris, o Mémorial de la Shoah (Memorial do Holocausto, em português) recolhe, cataloga, expõe, realiza conferências, organiza expedições pedagógicas de crianças e adolescentes franceses e não deixa morrer a memória de um dos maiores massacres do século 20.

“Dedicamos uma exposição no ano passado ao testemunho de sobreviventes de campos de concentração nazistas, e me lembro bem das palavras do [advogado franco-romeno e um dos maiores militantes da memória do Holocausto no mundo] Serge Klarsfeld”, diz Sophie Nagiscarde. “Ele dizia que antes não conhecíamos muito bem a história do Holocausto mas que, se hoje conhecemos muito bem essa história, parece que não serviu de grande coisa tê-la documentado, porque vemos a volta do nazifascismo em todos os lugares. E, ao que tudo indica, no Brasil também”, diz a diretora e curadora de várias exposições no centro parisiense do Marais.

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Klarsfeld escapou da Gestapo em 1943 se escondendo dentro de um armário de roupas, ao lado da irmã e da mãe, refugiados em Nice, no sul da França. Mas seu pai, deportado para a Polônia, foi assassinado, assim como milhões de judeus, no famoso campo de Auschwitz-Birkenau. O advogado militou a vida inteira pelo reconhecimento da memória das vítimas do Holocausto e se destacou na perseguição a ex-nazistas impunes. 

“Chocada”

“Ele sempre insistia na necessidade da militância antinazista e antifascista, na importância da memória e do ativismo”, lembra Nagiscarde. “Não podemos desistir. Precisamos continuar não somente a educar pela História, mas também nos comprometer na luta contra esse tipo de manifestação”, comentou a diretora, que se disse “chocada” ao saber das recentes polêmicas com o ex-apresentador Monark no Brasil e o ex-jornalista da rádio Jovem Pan, Adrilles Jorge, demitido após ter feito uma saudação nazista durante um programa de debates.

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Sophie Nagiscarde acredita que se deve “responder a esse tipo de nonsense pelo conhecimento”. “Nesse momento, também na paisagem política francesa, vemos pessoas que têm teorias e generalidades perigosas sobre Vichy, por exemplo”, diz ela, fazendo referência ao governo francês que colaborou com os nazistas durante a Ocupação alemã e enviou milhares para morrer nos campos de Hitler.

“Claro que esse tipo de notícia vinda do Brasil é chocante. Mesmo que o país estivesse geograficamente longe do conflito, durante a Segunda Guerra Mundial, sabemos que muitos descendentes de deportados se instalaram na América Latina. Existe toda uma memória a esse respeito que deve ser preservada”, diz a diretora do Memorial do Holocausto, que credita esse tipo de polêmica brasileira a “um certo grau de ignorância”: “é preciso sobretudo investir na educação dos jovens”, conclui Nagiscarde.

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