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A impunidade é a maior ameaça à democracia – Moisés Mendes


Punir os criminosos do bolsonarismo significará ir até o fim e os exemplares da direita e da extrema direita terão de viver a experiência do encarceramento


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Bolsonaro continuará livre e solto para planejar a volta ao poder em 2026. Sergio Moro terá o quinto emprego em três anos. Os filhos de Bolsonaro permanecerão atuantes no gabinete do ódio.

Deltan Dallagnol terá imunidade parlamentar e será um dos líderes da oposição na Câmara. Os coronéis das vacinas continuarão impunes. A Clínica Prevent lançará ações no mercado. Grileiros e garimpeiros serão contidos, mas com advertências e punições leves.

Nada do que possa ser imaginado sobre os cenários dos próximos meses, mesmo depois da eleição de Lula – e mesmo depois de o bolsonarismo ser abalado e do afastamento dos militares do poder –, será algo improvável.

Nada mais é improvável no Brasil de todas as possibilidades desde 2016. Nesse futuro ambiente pós-bolsonarismo, a impunidade será o maior desafio e a maior ameaça à democracia.

O desafio urgente não será o retorno dos militares aos quartéis. Nem o controle das milícias que estavam no poder e tampouco a gestão das relações do governo com um Congresso viciado em chantagens.

A ameaça da impunidade dirá o que será de todos nós, a partir da reacomodação não só do ambiente político, mas das relações sociais e humanas.

O Brasil que irá se recompor com o fim do bolsonarismo não estará íntegro se a impunidade prevalecer.

Se o Ministério Público e o Judiciário fraquejarem, fazendo concessões aos que cometeram crimes durante quatro anos (e mesmo antes da eleição de 2018), não haverá reparação.

Não há como aceitar uma acomodação como a que aconteceu a partir de 1979, quando a anistia permitiu que torturadores e assassinos ficassem impunes.

O ambiente que gerou a anistia era o da construção de utopias e de retomada da vida das instituições e das pessoas. Em 1979, o Brasil fez concessões também em nome do direito de retorno de exilados e perseguidos.

Desta vez, não há utopias disponíveis nem retornados. Haverá muito trabalho braçal pela recuperação da autoestima, da economia e da convivência entre as pessoas. Mas não há mais algo grandioso como os sonhos pós-ditadura.

O trabalho de resgate do Brasil será feito em meio aos escombros de uma extrema direita que estará ferida, mas ainda viva e com criminosos poderosos com delitos cometidos em todas as áreas.

Por isso, o maior desafio do Brasil não será o reatamento de laços familiares sequelados. Nem o conserto de amizades despedaçadas por quatro anos. O grande desafio não será o de oferecer a chance da sobrevida a vastas áreas da Amazônia.

Será, ao lado de um plano de emergência de salvação de pobres e miseráveis, o compromisso dos democratas com a certeza de que ninguém ficará impune.

Não poderão ficar. Criminosos já bem identificados, desde a campanha eleitoral, deverão temer a Justiça, ou a vida não será normalizada.

O Brasil pós-Bolsonaro terá de afastar direita e extrema direita de controles que levaram à criação das estruturas da Lava-Jato e ainda mantêm engrenagens de perseguição às esquerdas, a servidores públicos e a jornalistas independentes.

O poder econômico, sob o abrigo do bolsonarismo, precisa perder a empáfia de que manobra à vontade com parte do sistema de Justiça desde muito antes do golpe de agosto de 2016 contra Dilma Rousseff.

Se Bolsonaro, Moro, milicianos, financiadores de fake news e disseminadores de ataques à democracia ficarem impunes, tudo poderá acontecer de novo.

Não tem saída. Punir os criminosos do bolsonarismo significará ir até o fim. Pela primeira vez, exemplares da direita e da extrema direita terão de viver a experiência do encarceramento.

Sem o cárcere, qualquer punição ficará pela metade. Punições sem o caráter da vingança e dos métodos lavajatistas, mas com a Justiça em sua plenitude. O Judiciário precisa se apoderar de novo da Justiça.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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